Ligação Ancestral - UMBANDA

Blog que disponibilizará artigos sobre a Umbanda, liturgias afro-brasileiras e outros assuntos semelhantes.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Exus, pra quê demonizá-los? - Por Pai Carlos Pavão


Infelizmente, nos tempos de hoje e com tanto acesso a devidas informações, ainda vemos umbandistas demonizando essa bendita entidade espiritual, do qual trabalha conciliada com a lei e a justiça Divina, lei de Deus. Mas não entrarei nesses aspectos do que é exu, porque se uma pessoa o vê ainda como demônio, não está apta e preparada para conhecê-lo, para saber quem é Exu, aliás, quem demoniza os exus, tanto o orixá como os guias espirituais cultuados no Candomblé e Umbanda é porque não conhece ao menos a filosofia católica cristã do diabo, satanás e demônios, se soubesse jamais compararia Exu ao diabo. 

A melhor forma para se conhecer um exu é conviver com um, mas com um verdadeiro exu e não com mentes imaginárias que pensam incorporar guia espiritual ou com qualquer zombeteiro que se passa por exu. Uma pessoa que convive com guias espirituais de verdade tem a plena consciência do que faz um exu, de como haje um exu e aprende a compreender e discernir todos os seus mistérios, principalmente sua ronda em campos espirituais densos. Exatamente, ronda, pois Exu não é morador de planos inferiores ou trevosos, ele é um vigilante divino, um guardião da lei que ali passa nas mais diversas formas para fazer um dos trabalhos mais difíceis dos setores espirituais, e tudo em prol da evolução espiritual, da elevação de cada espírito, mas vou parar por aqui, como disse, uma pessoa que demoniza exu não tem ainda discernimento pra compreender essas palavras, esta ainda está na fase do beabá da Umbanda e se pessoas assim passou desta fase e continua demonizando exu, é porque simplesmente pulou etapas ou frequentou uma falsa escola umbandista, ou seja, um falso terreiro que prega tudo, menos o que é Umbanda, seria como uma criança que pulasse o beabá do período pré-escolar e já fosse direto para o ensino médio e posteriormente o ensino superior, se esta criança não exercer um bom caráter e procurar estudar tudo de novo, só lhe restará se juntar ao baixo caráter e comprar seu diploma, e, é justamente isto que parece ocorrer em tantos terreiros de Umbanda, pessoas incapacitadas na frente de um congá (altar) pregando aquilo que vem em suas mentes, pregando seus mais supérfluos desejos e suas vaidades.

O diabo e o Exu nunca foram parte de um sincretismo religioso e sim parte de uma grande discriminação da sociedade católica cristã, mas é até compreensível esta rejeição social católica, já que a religiosidade que a maioria seguia pregava que o caminho era os santos, anjos, arcanjos e Jesus Cristo, fazia parte das doutrinas religiosas desta massa social e quando a sociedade se deparou ao exu e todo o seu arquétipo misterioso logo o julgava pelo que sua doutrina religiosa pregava, como um demônio e outros. Mas, veja bem, é compreensível porque a esta sociedade lhe faltava as devidas informações sobre o guia espiritual que ali estava atuando na Umbanda. Mas e o umbandista, é compreensível continuar afirmando que exu é satanás, é um demônio ou diabo? Lhe faltam informações pra isso? Lhe faltam argumentos? Pra mim não é compreensível isto, pois, se cultuamos algo devemos por obrigação saber o que estamos cultuando e porque estamos cultuando, para que assim possamos com lucidez explanar àqueles que nos procuram curiosos por informações, interessados em conhecer e principalmente para que possamos explanar perante uma ação de julgamento sem devido conhecimento de causa. Mas não é isso que acontece, ainda se vê muitos pontos cantados e distorcidos dizendo: ''Ele é o maior dos satanás''...''Quem mexer com Exu está mexendo com diabo''... ''A porta do inferno estremeceu'' e outros. Isto é uma vergonha para a Umbanda!

Muitos umbandistas (se é que podemos chamá-los assim) usam a figura do exu como diabo para causar um sensacionalismo barato, pregam no dia a dia que fazem a caridade e logo quando discutem com alguém, quando passam por algum conflito pessoal, injustiça e demais, deixam a máscara do bom umbandista cair e usam exu como se ele fosse um servo da humanidade, que fica a dispor de suas mazelas, de suas vaidades, dos despeitos e demais, então já diz que vai mandar o ''satanás'' pegar, o ''diabo'' acabar com a vida do outro, etc. Sinceramente, este tipo de gente me enoja e enojará quem tem a devida consciência do que é um guia espiritual de Umbanda e principalmente um Exu. Quem anda do lado de guia espiritual, quem anda do lado de Exu não teme os conflitos da vida porque aprendeu a discernir primeiramente seus atos, porque aprendeu a reconhecer a justiça sem olhar para o próprio umbigo, tendo a ciência de que exu está acima do que enxergamos como bem ou mal, de que sua justiça é imparcial, porém parcial a Lei suprema divina e não aos nossos despeitos ou nossas razões, quem anda do lado de Exu tem a devida disposição de pedir a ele ciente de que Exu não virá defender a sua razão e sim a razão, seja ela de quem for, por isso, ''umbandista'' que julga exu tão baixo assim não merece o mínimo de respeito, justamente porque este acaba esculhambando a Umbanda e difamando algo tão divino como Exu.

Umbanda é religião de respeito para quem procura respeito e para quem merece respeito, mojubá Exu! (Meus respeitos Exu!)

Não há patente, há origem, há respeito - Por Pai Carlos Pavão



Orixá, Nkisi, Vodum e Guia espiritual não têm patente, porém, seus cultos e religiões têm raízes e devem ser respeitados. Sabe-se que hoje no Brasil e fora dele existem diversas religiões e cultos que louvam divindades e guias em comuns, porém, cada culto e cada religião ao seu modo, dentro de suas filosofias, dentro de suas doutrinas e dentro de seus fundamentos, todos formalizados perante os objetivos de cada religião ou culto.

O problema hoje em dia é exatamente algo que se chama identidade, se candomblecista cultua ao modo de sua religião guias espirituais, então dizem que ele cultua guias de Umbanda, se umbandista cultua ao modo de sua religião orixás, então dizem que está cultuando divindades do Candomblé ou espíritos que dão nomes de orixás.

A questão é a falta identidade, compreensão para saber que religiões no mundo inteiro cultuam ícones espirituais (digamos assim) semelhantes ou até iguais a das outras conforme suas doutrinas e hierarquias, o exemplo mais popular no Brasil e mundo é a questão do protestantismo e catolicismo cultuarem a mesma bíblia com interpretações seguidas de doutrinas diferentes que as fazem religiões em comuns, porém, diferenciadas.

A falta de identidade hoje em dia, aliás, que vem de anos e anos, décadas e décadas tanto em partes do Candomblé como em muitas, mas muitas partes da Umbanda é o que está acabando com as raízes, é como um jogo de dominó sem a exata colação das peças, ele cresce e perde o sentido. Hoje vemos cânticos de nação dos quais foram preservados perante a formalização do Candomblé sendo distorcidos e aportuguesados, casas de Candomblé com conceitos misturados, sem origem, sem raízes fazendo uma feijoada de culturas e ritos, assim, como vejo umbandistas ''pegando'' cânticos Kimbundo ou Kikongo e cantando-os para orixás ou guias espirituais de forma totalmente errônea, a ponto de envergonhar a religião e desrespeitar as tradições da formalização do Candomblé (religião que também é brasileira), vejo umbandista cantando cântico do Nkisi Pambu Njila pra entidade espiritual Pomba Gira, vejo umbandista cantando cântico do Nkisi Zazi para o orixá Oxóssi, saudando o Nkisi Mavile como Exu (espírito) cultuado na Umbanda, e, sinceramente isso é uma aberração para a Umbanda e um desrespeito para com a cultura afro-brasileira.

A ponte que liga os costumes dessas religiões é a fonte, é a história dos povos e suas miscigenações no Brasil que fez com que surgissem diversos cultos e religiosidades visando os mesmos ícones espirituais com crenças e metodologias ritualísticas diferentes, não existe fundamento copiado de uma religião pra outra, o que existe são crenças em comuns para doutrinas, hierarquias, ritualísticas e religiões diferentes, religiões que têm identidade própria perante suas formalizações doutrinárias. Não se deixe enganar pelo sacerdote ou zelador espiritual que se impõe como aquele que cultua e faz um pouco daquilo que tem em cada religião, como diz o sábio ditado: ''Quem sabe um pouco de tudo é ruim em tudo que faz!'' (Pai Carlos Pavão - Dirigente Espiritual de Umbanda)