Ligação Ancestral - UMBANDA

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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O CULTO AOS ORIXÁS NA UMBANDA - Por Pai Carlos D'Ogum (Carlos Pavão)



Venho levantar um tema com intuito de expor a visão do Orixá perante a Umbanda, mas antes disso, devemos ter a ciência de que, independentemente das religiosidades cultuarem as mesmas coisas, lembremos que cada religião é formalizada dentro de visões próprias, em muitos casos semelhantes, porém, focadas em suas hierarquias e doutrinas internas.

O Orixá é cultuado em diversas vertentes afro-brasileiras, tais como: Candomblé, Umbanda, hoje algumas casas de Jurema, Batuque e outros. Todos esses cultos trazem semelhanças na visão dos preceitos do Orixá, porém, cada um tem sua própria filosofia ritualística ao lidar com o mesmo, pra fugir das barreiras brasileiras, até mesmo em Cuba se cultua o Orixá, também de um modo próprio.
O culto aos Orixás é de raiz africana, culto este vindo do povo Ioruba das regiões de Ketu e Oyó. Com a chegada dos iorubas/nagôs ao Brasil, este culto foi implantado dentro das formalidades do Candomblé (Ketu/Nagô), mas a predominância do povo nagô foi muito forte no país e sua cultura religiosa também se espalhou com facilidade. Sendo assim, o Orixá também foi implantado na Umbanda, mas importante citar que, o Orixá foi implantado dentro de uma religião já formalizada, onde houve a interpretação própria do umbandista para com o Orixá, não se baseando no que o Candomblé fazia, mas se baseando no que o Orixá trazia, na essência do Orixá, no que a espiritualidade dele reflete ao culto umbandista.
Os Orixás são a própria natureza e sua manifestação: água, terra, matas, faunas, minérios, junções naturais como: terra e água (barro), encontro da água doce com água salgada, etc.
Toda forma de manifestação da natureza encontramos a presença do Orixá, por isso na África, os nagôs cultuavam mais de 400 Orixás, pois, eles davam e dão ainda a atenção ritualística a cada manifestação e ação da natureza. No Brasil muito mudou, já no Candomblé reduziram o ritual para 16 Orixás, onde houve muitas mudanças hierárquicas e ritualísticas ao cultuarem o Orixá, porém, mantendo uma estrutura bem próxima do que ocorre nos cultos de raízes africanas. Na Umbanda, o culto foi ainda mais reduzido para 10 Orixás, justamente por conta da filosofia que a Umbanda traçou a respeito dos Orixás e deles perante a formalização do culto.
Como citei, os Orixás são a própria natureza e suas manifestações, eles não são como espíritos que viveram uma vida física, não têm forma humana, são essências espirituais que co-ligam o universo e a Terra, ou seja, fazem parte da criação do mundo. Muitos ainda enxergam uma forma humana nos Orixás, isso ocorre porque na África a tradução dos Orixás era repassada na linguagem humana, pois, seria difícil uma compreensão direta do que era o Orixá para o povo naquele tempo entender, já que a ordem natural do ser humano é evoluir e no primitivismo natural da humanidade, não era possível repassar os Orixás numa forma complexa, por isso, a mensagem chegou numa forma simplória e prática, onde humanizavam os Orixás, traduzindo seus preceitos através da linguagem humana. O tradicionalismo baseado nos ocorridos da África foi mantido até os tempos de hoje, tanto dentro do Candomblé como na Umbanda, onde a linguagem do nosso culto é prática, traduzida pela espiritualidade da forma que chegou, humanizando os Orixás para praticidade de nossos preceitos e fundamentos dentro dos cultos. Diante o que ocorre dentro de nossos rituais, cabe a nós a tradução sobre a espiritualidade dos Orixás sem fantasiar os fatos e sem acrescentar versões destorcidas sobre tais Divindades.
O mal que assola muitos umbandistas, é que de forma alguma, os mesmos conseguem desvendar a Umbanda se baseando nela mesma, então ao não compreende-la, passam a buscar informações em outras religiosidades, isso ocorre muito com o tema Orixá, onde umbandistas de forma alguma compreendem a presença dos mesmos no culto e buscam respostas no Candomblé, fazendo por onde embolarem a lógica, distorcendo todo um procedimento filosófico que a Umbanda segue, e ainda mais, deixando a Umbanda como submissa aos demais cultos. Mais uma vez deixo claro, a Umbanda tem sua filosofia própria do que são os Orixás dentro da praticidade que segue. A mesma não se baseia em outra religiosidade para cultuar o Orixá, a não ser se basear nele mesmo, no que ele traz ao culto.
As filosofias de ambas as religiões a respeito de o Orixá ser cultuado é diferente, cada uma se baseando em sua própria doutrina religiosa, assim como o catolicismo e o evangelismo que seguem dogmas de uma mesma bíblia, mas com interpretações próprias. Neste caso, se deve ter o respeito pelo que cada religião enxerga em suas doutrinas, discordar é normal, por isso cada ser tem o livre arbítrio para procurar respostas aonde se sentirem melhor, o que não pode haver, é usar da filosofia vizinha, distorcê-la e colocá-la na filosofia da sua religiosidade , isso é desrespeito com a religião alheia e com o seu próprio seguimento, infelizmente isso ocorre demais dentro da Umbanda, por conta de uma massa não compreender a mesma e distorcê-la perante o que mais facilita sua compreensão individual.
Na África como dito, o culto é focado em todas as ações da natureza, por isso, por lá são cultuados mais de 400 Orixás, no Candomblé de origem Nagô/Ioruba o culto está focado nos Orixás responsáveis pela criação da Terra e alguns co-criadores, por isso cultuam 16 Orixás, já na Umbanda, o foco está somente nos Orixás responsáveis pela criação da Terra, onde trazem enigmas que ligam toda manifestação que dá a vida ou colabora pra isso, por isso a Umbanda cultua cerca de 10 Orixás, que são eles:

Oxalá (ligação com universo e Terra);
Obaluayê/Omulu (elemento a terra);
Nana Burukê (barro)
Ogum (minérios: ferro)
Oxóssi (verdes: matas, florestas, etc.)
Xangô (trovões e raios)
Yemanjá (águas salgadas)
Oxum (águas doces ou claras)
Yansã (ventos)

Os Orixás citados são os que a Umbanda cultua, apenas citei alguns de seus elementos naturais, não especifiquei cada Orixá, nem mesmo vou fazer aqui, já que a intenção não é falar de cada Orixá e sim falar sobre os Orixás num conjunto.
Os Orixás sendo manifestações naturais se encontram em toda manifestação viva, portanto, estes não se manifestam no ato de incorporação em nenhum ser, já que são forças da natureza que emanam energias para toda nossa forma viva, a presença deles está espalhada e concentrada em tudo, eles são como Deus, que é um centro único de energia que dá vida a tudo, porém, como partículas de Deus espalhadas pelo universo, pela espiritualidade e pelos planos físicos, dando vida e movimentando tudo, por isso é impossível a incorporação dos Orixás no ato mediúnico.
Acredita-se que todo ser vivo também é manifestação dos Orixás, por conta de que, as energias deles formam e movem o ato da vida. Nós seres humanos somos feito de carne e osso, mas temos nosso espírito que move nossa matéria, na formação de nossos espíritos, tivemos a concentração dessas energias/ forças que chamamos de Orixás, onde se concentram num ponto específico que chamamos de ''coroa'', essa concentração ocorre quando encarnados. É neste ponto que entra o culto e os preceitos religiosos. Temos todas as energias depositadas em nós, mas isso não significa que todas estão ativas, isso seria impossível, entraríamos em choque. Diante essas energias, existe uma que é a predominante, aquela que concentra nosso andamento de vida, tanto física como espiritual, mas, nem sempre esta energia está em harmonia conosco, às vezes até mesmo outras energias estão mais elevadas do que a predominante, é aonde causa algumas desarmonias para o ser humano. A função do culto é harmonizar tais energias, nos sintonizar com elas, principalmente com a energia que nos predomina. Mas, tudo isso ocorre dentro dos preceitos religiosos, dentro da praticidade e linguagem do dia-a-dia do culto, como havia citado anteriormente. Sendo assim, essas energias/forças são a presença dos Orixás em nós e tal energia predominante é o que chamamos na Umbanda de nosso ''Pai'' ou ''Mãe'' de cabeça. Seria o Orixá que rege nossa coroa, que está concentrado nela nos dando todo andamento da vida.
Na Umbanda, existe todo um ritual em procedimento dos Orixás, onde dentro do mesmo espaço, fazemos a junção deste culto com os Guias espirituais (espíritos orientadores), obviamente que não misturando Orixá com Entidade (Guia espiritual), mas recebendo das Entidades conselhos ao se cuidar dessas energias, ou seja, dos Orixás. Diferente do Candomblé, a Umbanda acredita que através de espíritos milenares e preparados pra isso, o Orixá se manifesta trazendo sua essência a nós no ato da incorporação. Ou seja, que a energia especifica do Orixá vem concentrada neste espírito intermediário, que incorpora nos médiuns, trazendo a essência humanizada dos mesmos ao culto. Muitos chamam tais espíritos de ``falangeiros’’ ou até mesmo ``Caboclos’’, o que não concordo porque tais termos já tem designação correta na Umbanda, Falangeiros são para Entidades que pertencem a uma falange específica, ou seja, um grupo nomeado de Entidades, como: Caboclo Pena Branca e sua falange, nos quais são Caboclos que se apresentam como ``Pena Branca’’. E, Caboclo é uma palavra referida aos Caboclos de Pena ou de Couro, que são Entidades com aspectos de índios e Boiadeiros. Se os Orixás estão espalhados e concentrados em tudo, onde são a própria manifestação da vida, então no culto chamamos esses espíritos intermediários de Orixás, pois, os mesmos nos trazem a manifestação do Orixá neles e concentrada em nosso culto, para assim emanar bons fluidos para todos os presentes, esta é mais uma forma do Orixá se manifestar perante a filosofia e visão umbandista. Tudo que a Umbanda faz em prol do Orixá, está baseado nesta manifestação do mesmo através dos intermediários, assim se descobre quem são os ``Pais e Mães de cabeça’’ e assim se faz todos os demais procedimentos ritualísticos praticados na Umbanda, por isso nos cultos umbandistas não há necessidade dos búzios, a comunicação é direta com as Entidades espirituais, onde elas trazem as mensagens do que fazer com os Orixás.
Vou citar mais uma vez algo que acho de estrema importância, as Entidades não vão usar uma linguagem complexa ao se falar dos Orixás, pelo contrário, vão usar uma linguagem popular e prática, usando da humanização dos Orixás para falar sobre eles e seus procedimentos. Por exemplo, se um Preto Velho falar que tem que cuidar do Xangô, porque Oxóssi está entrando em quizila (atrito) com o mesmo e prejudicando o médium, isso não poderá ser levado ao famoso ``pé-da-letra’’.
Xangô e Oxóssi não são humanos para brigarem e muito menos Oxóssi terá um conceito popular e baixo de atrapalhar alguém, são forças/energias da natureza. O Preto Velho, no caso do exemplo, quis dizer, que a energia predominante (Xangô), está fora de sintonia com a ``coroa’’ do médium, justamente porque o médium não está tomando as devidas precauções com a mesma e a outra energia (Oxóssi) está mais presente, causando então uma desarmonia no médium. O que fazer neste caso? Através dos rituais do culto, trabalhar todas essas energias, sintonizar o filho do terreiro com as mesmas dentro dos preceitos devidos, o que chamamos de cuidar dos Orixás, tratá-los em nossa coroa, dar os preceitos, etc. (deixo claro que isto que citei trata-se apenas de um exemplo)
Como disse anteriormente, cabe a cada um de nós buscar devidas orientações, montar o ``quebra-cabeça’’ de nossa religião, é difícil, mas melhor a pessoa tentar montá-lo, do que deixar as peças todas tortas e distorcidas, roubar peças de outro quebra-cabeça, deixando os dois incompletos e com as peças erradas. Do contrário, é melhor seguir a linguagem prática do culto e cumprir as coisas sem questionamentos, sem dar importância para este tipo de entendimento, é melhor do que distorcer tudo simplesmente por conta do ego pessoal. E o pior, acabar destorcendo não só a Umbanda, mas sim as outras religiões que nada tem a ver com a falta de informação devida que alguns indivíduos tem dentro de seus terreiros.

Os Orixás estão presentes em tudo, presentes nas religiões que os cultuam, não devemos jamais apontar e julgar a forma que cada religião interpreta o Orixá (desde que não desvirtuem o Orixá em si), discordar sim, faz parte, mas respeitar acima de tudo, já que cada religião tem as portas abertas para darem as respostas que cada um procura e nós que escolhemos aonde entramos. Não tentem jamais mudar o que já está pronto, batam na porta da religião que te dará a resposta que procura, mas não tente mudá-la como andam fazendo com a Umbanda. Pense que é mais fácil mudar seus conceitos, do que todo um conceito de uma religião pronta e formalizada.

Carlos Pavão